15.10.08

Não dá pra se fazer de cego

Quem leu a obra [complexa e rica] de José Saramago duvidava que seria possível adaptá-la para a tela grande. A falta de nome dos personagens seria o de menos. "Como transportar as sensações desenhadas pela linguagem escrita do autor português para a sala escura? A cegueira na qual fomos submersos naquelas páginas? Como será possível" era o que perguntávamos todos.

A resposta não veio nem com a confirmação de Meirelles encabeçando o projeto de adaptar ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA pois até dele duvidamos. Nem ele, com sua câmera nervosa e sua fotografia plástica inspirou confiança.

Felizmente, nosso diretor mais uma vez prova que talento não tem lingua ou raça. Ele não só adaptou belissimamente a obra de um dos maiores gênios da literatura mundial, como acrescentou a ela indícios de sua perspicácia enquanto homem das artes quando transformou a fita em uma material sem origem étnica.

Diferentemente do que vimos em "Amor nos Tempos do Cólera", aqui a lingua portuguesa não faz falta. O idioma inglês transformou-se em mera formalidade diante da avassaladora história que ia se apresentando nas mais de duas horas de filme.

Rodado no Canadá, Hong Kong, Brasil (em uma das mais belas sequências da cidade de São Paulo no cinema) o longa traz no elenco a mesma diversidade étnica: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael Garcia Bernal, Alice Braga, Danny Gloover, Yusuke Yseya, todos espantosamente magníficos!

O que o diretor fez com a câmera é poesia. Através dela, revelou a natureza pérfida do ser humano, criou uma alegoria sobre a sociedade contemporânea de tamanha grandeza que torna impossível uma análise simplista, única. O filme fala de quê? De tudo! O melhor mesmo é fechar os olhos para enxergar aquilo que sempre esteve à vista de todos.

O filme é visceral. Não há concessões a se fazer. Se o Oscar fosse justo, eu já teria meu candidato!

Nenhum comentário: